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Uma reflexão sobre o trabalho na indústria da moda

No dia internacional do trabalho, vamos parar um pouco para falar sobre o trabalho na indústria da moda. Afinal, por que ainda poucas pessoas falam sobre isso?

Quando se fala sobre o trabalho na indústria da moda, principalmente no setor produtivo, parece haver uma polarização: de um lado, quem defende a produção local e em baixa escala em prol da sustentabilidade, de outro, quem defende a permanência da grande indústria e dos empregos que ela gera. De ambos os lados há pontos importantes a serem considerados, mas aqui eu gostaria de falar da realidade brasileira como ela é hoje.

Trabalho na indústria da moda: Qual é a realidade das confecções no Brasil?

A indústria de confecção é facilmente encontrada na grande maioria das cidades, por dois motivos principais: sua fácil implementação – com uma máquina de costura, uma mesa e uma tesoura já é possível iniciar uma pequena produção – e pela característica da técnica ser ensinada de geração em geração, além da existência do ensino formal. O porte e a estrutura organizacional pode variar de uma empresa para outra, no entanto, a tecnologia utilizada nesse setor em termos de maquinário é muito parecida na grande maioria das empresas.

Gostaria de citar dois artigos acadêmicos que me interessaram bastante e tratam desse assunto.  O primeiro é uma Dissertação de Mestrado da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção. O autor Adilson da Silva soube traduzir muito bem a forma como o setor produtivo da confecção está organizado no Brasil:

“É um setor que depende muito da habilidade da mão-de-obra e normalmente o tempo de utilização das máquinas, para se executar o trabalho é muito inferior ao tempo manual utilizado. Assim, percebe-se que a organização do trabalho é desenvolvida de forma empírica, entre erros e acertos o que tem provocado vários problemas de qualidade, produtividade, atrasos nos prazos de entrega do produto, comprometendo a imagem da empresa perante o mercado.”¹

É fato que a indústria da moda depende muito da mão de obra, são as mãos desses profissionais que sustentam toda uma cadeia produtiva. Há pouca automatização dos processos de confecção do vestuário, principalmente no Brasil, e ao mesmo em que isso possibilita o nascimento e manutenção rápida de novos negócios, abre portas para todos os tipos de profissionais que possuem uma confecção agirem na gestão do seu negócio como acharem melhor, algumas vezes sem seguir boas práticas na sua gestão produtiva.

Qual é o futuro das confecções no Brasil?

A cada dia que passa surgem novas marcas de moda de uma geração que está acostumada com as facilidades da tecnologia e compreende cada vez menos como uma cadeia produtiva tão extensa ainda sofre pela falta de tecnologia e de processos produtivos adequados. É certo que a mão da costureira, da passadeira, da revisora de qualidade, da piloteira, do cortador e de tantos outros profissionais, não será substituída com a simples chegada de uma máquina nova. Esses profissionais são fundamentais e devem ser valorizados, mas tão valorizados ao ponto de terem acesso a procedimentos claros de boas práticas na indústria de confecção para continuarem competitivos no mercado.

Em 2010 a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) em parceria com a ABIT – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, lançou o caderno nº XVIII com o Estudo Prospectivo Setorial Têxtil e de Confecção. Nesse estudo, foi exposto um mapa da Visão de Futuro da Cadeia Têxtil e de Confecção Brasileira².

Dentre as ações, há temas como “Gerar empregos qualificados” e “Integrar-se com Centros de P&D e Universidades”. podemos dizer que chegamos em 2017 sem que essas implementações fossem percebidas. A verdade é que, enquanto houver um distanciamento tão grande entre os profissionais da indústria de confecção e o acesso ao conhecimento e boas práticas produtivas, a industria da moda ainda sofrerá muitas perdas de tempo e matéria-prima com as dificuldades enfrentadas pelo setor.

Nosso papel é trabalhar para que os profissionais que estão à nossa volta tenham acesso à melhoria contínua para que possamos crescer todos juntos. Se cada um fazer o seu  trabalho na indústria da moda, se cada marca de moda trabalhar com seus fornecedores para o crescimento mútuo, aí sim veremos uma mudança significativa no mercado de moda brasileiro.

Sobre Janaina

Co-founder e Gestora de Modelagem e Produção Especialista em Ergonomia e Qualidade de Produto

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